sem título
internaram a menina
tinha só 11 anos
preocupavam seus olhos
nunca erguidos
flutuando erráticos
nalgum ponto
pouco acima do chão
uma libélula
tudo nela tinha cheiro
da morte quando chega
sorrateira sem bater
de gente de passagem
quando falava ressoavam
sinos de igreja
nada a surpreendia
achavam que fosse somente
imaginação
mas o tempo foi passando
foi-se confirmando
o abismo que ela cavava
com os pés
não havia tristeza
nem tampouco apatia
é que gorgolejava
no seu coração
um rio estranho
de águas pesadas
que só corriam pra trás
mas a verdadeira gota d'água
o prego no caixão
foi quando sua mãe
a coitada
enquanto a menina se banhava
nesses banhos longos
de quem quer ser água
espiou no quarto dela
e achou seu caderninho
presente da avó
quase intocado
quis deus que ela abrisse
na página 26
um papai noel
desenhado com esmero
os olhos tortos
bochecha gorda
de caneta vermelha fosca
letras mal escritas
pouco abaixo do desenho:
"de natal eu queria
sair de casa com meu quarto
de um jeito
e que quando eu voltasse
ele estivesse
de outro."
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