quando eu era criança, detestava brincar de pique esconde. mal me sei, sou terrível em encontrar os outros. certa vez, brinquei com os colegas que se espalharam pelo estacionamento. não achei ninguém. ainda não achei ninguém.
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metáforas para uma condição limítrofe
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tudo rima em minha vida. sou incapaz de fazer jus a esse ritmo sem métrica que me embala como embala o mar ao meu corpo. corda velha, não me afino no tom desse samba. desimpedido, ele me toma me ocupa desde o ventre até essas asas tortas que ainda não sei usar. felizmente, é maior o mistério do que a carne do que os limites em carvão que me desenham e separam. essa canção sempre tem um verso a mais e a noite na pedra do sal é longa. durmo infante no ombro quente desse enredo infinito, e confio que a voz-pandeiro além do tempo me borrará sem pressa as linhas.
carangueijo-eremita
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lembro da voz trêmula das mãos enrugadas andava encurvado sob um peso invisível comia de boca bem fechada não gostava do barulho sua esposa minha avó quando viva fazia um pirão de carangueijo sensacional - ele no fim de sua vida via siris alucinados a correr pelo chão quando ela morreu o encontrei sentado inclinado sobre seu luto sob o som do tempo em nosso quarto de hóspedes encarava a parede em mudo ritual encerrava em si os anos a vida me era toda um fundo de mar e ele pra mim criatura marinha vivia pela praia a concha sobre os ombros é do fundo do mar que saem os barulhos as poucas verdades que existem nesse mundo queria ouvir sua voz de dentro saber se era também assim tão trêmula
zoologia urbana
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cultivo dentro de mim uma tristeza que me parece obscena pulo como pulga de vagão em vagão busco acreditar que há espaço pra mim há espaço é preciso correr à esquerda é preciso parar à direita é preciso dobrar para o lado certo mas se perder só um pouco pra ter o azar de conhecer alguma coisa nova um mapa de momentos que logo esqueço ruas cujo nome ignoro de vagão em vagão vou deixando um rastro dessa obscenidade e troco suave de pele troco sem notar eu esqueço que sou bicho mas o tempo vai lembrando rastejando toda tímida encontro meu assento lá no último vagão que de mim ninguém espere nada nada mesmo me sento fecho os olhos estações descontroladas passam num só rio não busco acompanhar me perco só um pouco
demian
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tenho filosofado bastante. filosofia é o nome que se dá quando você encara o tronco de uma árvore em silêncio por uma hora e tenta entender por que as teias de aranha reluzem desse jeito sob o sol. ou, como diz o organista em demian, do herman hesse, filosofar é se deitar no chão sobre a barriga e encarar o fogo. muito se fala sobre a importância de criar, de por algo no mundo. pouco se fala sobre se deixar atravessar. hesse fala que somos de tal maneira ligados ao mundo ao nosso redor que somos, no fim das contas, seus co-criadores - se por acaso as montanhas, rios e mares desaparecessem da noite pro dia, seríamos capazes de recriá-los inteiros na nossa mente, porque "todas as criaturas da Natureza estão previamente criadas em nós mesmos". tenho buscado essas criaturas em mim, nesse tempo em que moro só em são paulo, vivendo de metrô e respirando essa frieza e secura, conhecendo os bares e sons tão novos e estranhos, ouvindo vozes que nunca antes ouvi. penso que demia...