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demian

 tenho filosofado bastante. filosofia é o nome que se dá quando você encara o tronco de uma árvore em silêncio por uma hora e tenta entender por que as teias de aranha reluzem desse jeito sob o sol. ou, como diz o organista em demian, do herman hesse, filosofar é se deitar no chão sobre a barriga e encarar o fogo. muito se fala sobre a importância de criar, de por algo no mundo. pouco se fala sobre se deixar atravessar. hesse fala que somos de tal maneira ligados ao mundo ao nosso redor que somos, no fim das contas, seus co-criadores - se por acaso as montanhas, rios e mares desaparecessem da noite pro dia, seríamos capazes de recriá-los inteiros na nossa mente, porque "todas as criaturas da Natureza estão previamente criadas em nós mesmos". tenho buscado essas criaturas em mim, nesse tempo em que moro só em são paulo, vivendo de metrô e respirando essa frieza e secura, conhecendo os bares e sons tão novos e estranhos, ouvindo vozes que nunca antes ouvi.   penso que demia...

stone-whispered, unnameable

  i know you cannot name him so you call him love. i see it in the way you    cannot miss him that's about all            you've saved for me. i haunt you            and you'll let me do it. the way you were born    to suffer my darkness and i was born    to curse your name. the whole world goes on                        unknowable but your name is there         on   my   hand. though scribbled and twisted into an absence i feel it here it won't leave. for the sake of storytelling i cannot show them      (i don't think they'd know       what they're looking at anyway.) but when they look        –  if they choose to –       at the shape my body leaves            when i lift myself from this grave ...

língua maternal

eu preciso voltar a escrever, eu digo com a cabeça no travesseiro. eu preciso voltar a escrever, eu penso encarando o chão azul do metrô, aquele padrão abstrato que disfarça a sujeira e a gente aprende a não ver. eu preciso voltar a escrever, eu digo pra quem quiser me ouvir, como se alguém fosse tirar do bolso uma caneta e papel e dizer “pronto, aqui”. eu preciso voltar a escrever, eu penso, quando vejo tudo o que tem no mundo e todo o pouco que sobra dentro de mim e que quer sair num padrão abstrato pra disfarçar essa sujeira que gruda em tudo. eu preciso voltar a escrever, escrever alguma coisa dessas que colam na parede, dessas que se a gente anda distraído com o olhar no chão a gente não percebe. eu preciso voltar a escrever as mesmas palavras que existem há séculos na língua que me foi impressa na testa como um sinal da besta, a língua que carrego como uma maldição milenar e que escorre em litros pelas placas, entre páginas, sobre telas, pelas bocas das pessoas que não veem o chã...

sem título

internaram a menina tinha só 11 anos preocupavam seus olhos nunca erguidos flutuando erráticos  nalgum ponto pouco acima do chão uma libélula tudo nela tinha cheiro da morte quando chega sorrateira sem bater de gente de passagem quando falava ressoavam sinos de igreja nada a surpreendia achavam que fosse somente imaginação mas o tempo foi passando foi-se confirmando  o abismo que ela cavava  com os pés não havia tristeza nem tampouco apatia é que gorgolejava no seu coração um rio estranho de águas pesadas que só corriam pra trás mas a verdadeira gota d'água o prego no caixão foi quando sua mãe a coitada enquanto a menina se banhava nesses banhos longos de quem quer ser água espiou no quarto dela e achou seu caderninho presente da avó quase intocado quis deus que ela abrisse na página 26 um papai noel desenhado com esmero os olhos tortos bochecha gorda de caneta vermelha fosca letras mal escritas pouco abaixo do desenho: "de natal eu queria sair de casa com meu quarto de u...

uma panela

 tem alguém me vendo? não é isso que importa, na verdade. vamos ser sinceros nas perguntas. tem que ser aquela dona do braço forte que sabe mexer o caldo quando engrossa. ela que sabe evitar que ele queime e deixe os pedaços feios colados no meu fundo, minha superfície lisa e metálica e bonita mesmo depois de todos esses anos de uso. tem que ser a moça que não erra no sal pra depois o convidado, sem graça, ter que pedir mais, e que também coloca na hora certa o tempero pra que não queime e fique aquele gosto de planta assada no caldo. estou aqui esquentando mas alguém tem que estar me olhando, não posso ser deixada assim, à própria sorte, vai saber o que essa minha quentura pode fazer… minha não, a bem dizer, pego emprestado. só por enquanto, enquanto esse caldo que antes era água e carne e vagem e coentro começa a borbulhar. mas tá comigo esse calor, e eu não sei guardar. panela não tem noção de tempo. alguém tem que olhar. de preferência, mexer também. saber deixar quieto e saber...

sol pegando cão

 sol pegando cão. domingo vento e rádio são coisas que pertencem ao mesmo mundo.   sempre acreditei demais na infinitude do animal e talvez por isso a realidade me seja tão sofrida. contra todas as probabilidades, fingi que eu era tudo, que eu era essa música despótica que controla nossos movimentos e nossas imagens. eu abria os olhos mas não eram eles que enxergavam, era a voz de fundo das coisas, que emana dos pelos do cachorro aquecidos no sol da manhã e que desliza feito umidade no focinho do cão e que constrói sem pressa a lufada de vento que vai curvar a esquina amanhã às cinco da tarde. imagine uma criança em seu cavalo de pau se pensando grande cavaleiro que circunda o globo num piscar de olhos. era eu nas rédeas do universo, imaginando tudo que ia acontecer e, com todas as maiores pretensões, acreditando que nessa brincadeira eu criava o que seria.  é fácil fechar os olhinhos cansados de tanta queimação diurna e pensar numa orquídea. descobri que a baunilha ...

deus de costas

  não é bem um medo, é quase uma certeza. ela eu carrego comigo desde que nasci, herdei de alguns antepassados meus. de tantas heranças, a que me coube foi essa neurose. o mundo vai me empurrando não sei pra onde, e não importa o quão rápido eu corra com minhas perninhas capengas, não tá rápido coisa nenhuma! deus vai levando nos braços cada pessoa, com a velocidade que só o divino tem, e me reserva unicamente a visão das suas costas. sempre viradas pra mim. a certeza que herdei é essa: tô sempre ficando pra trás.   de vez em quando é boa essa visão traseira do divino. quando vejo a disparada dos meus amigos, da minha família e de quem mais mereça coisas boas, me sinto privilegiada por testemunhar de perto. deus já deve tar de saco cheio de mim - fico feito papagaio no seu ombro, querendo bisbilhotar os futuros brilhantes que ele reserva pra quem eu amo. sou ansiosa sempre pelo desfecho. se pudesse, eu mesma tirava do soberano a soberania e escolheria com força cada amigo...