demian
tenho filosofado bastante. filosofia é o nome que se dá quando você encara o tronco de uma árvore em silêncio por uma hora e tenta entender por que as teias de aranha reluzem desse jeito sob o sol. ou, como diz o organista em demian, do herman hesse, filosofar é se deitar no chão sobre a barriga e encarar o fogo. muito se fala sobre a importância de criar, de por algo no mundo. pouco se fala sobre se deixar atravessar. hesse fala que somos de tal maneira ligados ao mundo ao nosso redor que somos, no fim das contas, seus co-criadores - se por acaso as montanhas, rios e mares desaparecessem da noite pro dia, seríamos capazes de recriá-los inteiros na nossa mente, porque "todas as criaturas da Natureza estão previamente criadas em nós mesmos". tenho buscado essas criaturas em mim, nesse tempo em que moro só em são paulo, vivendo de metrô e respirando essa frieza e secura, conhecendo os bares e sons tão novos e estranhos, ouvindo vozes que nunca antes ouvi.
penso que demian é o livro da minha vida. não sei que movimento interno me impulsionou a lê-lo esse ano, mas, se me apego à filosofia da própria obra, devo concluir que não existe acaso. devo concluir que dentro de mim há um eu que tudo sabe, como pensa o próprio protagonista, que me levou a ler quando li, a sentir o que senti. mas tenho medo de conhecer esse eu, tenho medo da ternura imensa, do amor profundo que ele sente por tudo o que existe. tenho medo porque sinto que preciso ser mais, sinto que preciso receber, e merecer receber, e não apenas sentir. como se minha existência se resumisse a um eterno dar, dar a um ente incorpóreo, dar a esse Todo - dar minha devoção, meus anseios, meu desespero por uma resposta. uma resposta do mundo. encarar o tanto que a desejo, que sempre a desejei, é encarar o tanto que não recebi em troca durante todos esses anos. e não há ninguém que poderia, individualmente, dar-me qualquer resposta útil, encarnar a ternura que meu eu criança precisa receber. o amor pra mim é esse tanto indizível e ilimitado, jamais circunscrito a pessoa ou situação. e por isso que ele é tão assustador.
mas demian é o livro da minha vida porque tudo o que nele ocorre espelha um aspecto da minha vida de modo quase exato: a visão dos dois mundos, um da luz e da piedade, aceitável e ligado ao ambiente familiar, e um da escuridão e da maldade, o mundo dos Outros, dos adultos, uma espécie de selva ao qual somos eternamente vulneráveis, e a vontade insatisfeita de conciliar os dois mundos; a convivência com a culpa, uma culpa que surge de uma situação infantil e até boba, mas que é mais real do que qualquer outra coisa; o desejo recorrente de aniquilamento de si, de remoção do seu estar no mundo, de caminhar pra longe, de se perder do mundo; e, o que amarra tudo, a obsessão por demian, beatrice e o pássaro como símbolos desse insolúvel enigma, desse relacionamento insustentável entre o eu no mundo e o mundo no eu.
lembro vividamente de um episódio de quando eu tinha menos de 6 anos. se hoje sou considerada por muitos uma pessoa falante, eu certamente não o era quando criança, pelo menos até os 12 anos: era extremamente tímida, recolhida em mim e nos meus pensamentos, preferindo muitas vezes dormir e ler a brincar por aí. acredito que pra minha família eu ainda seja uma pessoa recolhida e quieta. desde aquela época, uma melancolia pairava sobre mim como uma sombra, e nesse dia ela me invadiu em ondas imparáveis. estava no parque do colégio, que nada mais era que um grande banco de areia com balanços, escorregadores e gangorras. era fim de tarde, um momento do dia que pra sempre significaria pra mim essa tristeza incompreensível, essa solidão maior do que um coração de criança é capaz de suportar. o céu já estava completamente lilás e as cores estavam desbotadas, opacas. aquele momento no qual já está escuro, mas nenhuma luz foi acesa ainda no parque. não lembro se estava brincando com alguma criança, conversando com alguém, e na verdade pouco importa - nenhuma dessas situações jamais me impediu de me sentir completamente só. lembro apenas de estar sentada no fim de um escorrego e encarar a areia cinzenta. lembro de sentir que o mundo é vazio. que eu não tinha lugar algum a ir, nada a fazer, nada a ser, e se fazia ou era qualquer coisa, o era porque era criança e precisava ser levada de um canto a outro, porque é o que se faz com crianças. mas que de mim não brotava instinto algum pra fazer o que fosse, pra viver o que fosse. que contemplar esse dia escuro, esse lusco-fusco de fim de tarde, esse zumbido de cigarras, esses gritos de criança brincando, já era demais e me ocupava todo o pensamento e coração. que me perceber viva já era um enigma grande, uma tarefa importantíssima, e que eu não teria nunca tempo pra qualquer outra coisa. e me senti inteiramente só. soube ali que estaria eternamente só.
minha vida é somente a continuação desse dia. tento em vão me convencer de que há algo mais importante do que sentir que vivo. surgiu em algum momento do meu desenvolvimento o desejo secundário de impressionar, de ser alguém de relevância ou contribuição para o mundo, de ser admirada. nada mais do que essa espera por um retorno do mundo, um espelhamento externo da devoção e entrega que sinto de mim para com o de fora. essa necessidade de aprovação por vezes me paralisa, por vezes me incita, e sempre me enche da sensação de correr contra o tempo - vou morrer, e ainda não me tornei uma pessoa. mas não é mais que uma distração, que uma ânsia colateral advinda do meu problema primordial, esse sim o mais verdadeiro, o mais absoluto, do qual não consigo fugir e não consigo, nem mesmo agora, descrever como merece: me é absurdo que sigamos vivendo, sigamos nesse mundo e com essas experiências, essas memórias e expectativas, todas essas palavras, sentimentos e obsessões, e que isso não nos seja extraordinário. dói o quanto tudo é real. dói o quão cruamente vivo minha vida. não consigo me convencer de que meu trabalho, meus estudos, até meu prazer e minha dor sejam tão relevantes quanto a simples contemplação. sinto que tudo o que eu fizer que não seja encarar duramente minhas memórias, tudo o que carrego comigo, é uma fuga.
por muito tempo pensei que seria escritora. também pensei que seria atriz. às vezes penso que serei música. mas nada gruda. eu sou esse bicho que sabe que é, sabe que vive, e é essa a minha função. isso precede a escrita, precede a composição: eu poderia nunca escrever nada, nunca falar nada, me isolar numa caverna sem nada externar ao mundo além de suor e bosta, e minha função principal estaria sendo cumprida. estou próxima de uma fonte de segredos intermináveis, ouço atentamente ao gorgolejar da corrente que sai da terra, que jorra como sangue. mas ela não fala nada a mim, ela não diz meu nome. não há nada pra mim nisso, talvez para os outros tenha, suspeito que sim, mas para mim não há nada. não consigo sair daqui, não consigo deixar de ouví-la, não consigo parar. uma tábua para prática de arremessos de faca, meu trabalho é ser atravessada, e só.
é o suficiente? ou quero mais? um dia ouvirei uma resposta? um dia o mundo falará meu nome, seja qual for? se ele falar, vou ser liberta? estarei feliz? eu não sei. esse mistério é também o que me atravessa. é também a essa dor e esse vazio que escuto jorrar. não tenho utilidade segunda, nada devo, de fato, a ninguém. sirvo apenas a esse enigma, esse observar, às teias de aranha, ao ar frio no parque ibirapuera, ao mormaço da praia do pina, ao silêncio absoluto do meu quarto. não tenho pele ou roupa. nada me protege. morrerei e porei um fim a esse dia longo que começou na constatação cruel que tive naquela tenra idade, naquele banco de areia no fim de tarde. não me preocupo mais tanto com posteridade. tenho tido menos medo da morte. tudo o que atravesso já me mata, e esse é meu trabalho. morrer.
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