ipinnu
Breno, ou Breninho Ipinnu, o lateral esquerdo sensação. Novinho novinho, e o menino já é estrela em capa de jornal, ocupando o lugar de política e roubalheira e et cetera. Breninho! Grande Breninho, com vinte e um recém completos, o moreno do Ceará tá no auge da forma. É cada passe, cada pique!, nem o narrador acompanha. Breninho, esse aí sabe jogar, é o que falam os velhos no bar, e é com o que concordam os jogadores aposentados, com maior ou menor grau de inveja. Breninho tem namorada, tá esperando uma criança. Menino responsável, esse. A vó chora vendo jogo, o pai chega dá aquela batida nas costas. Olha a foto nova de Breno! Olha essa jogada de Breno! Olha o penteado novo de Breno!
Copa tá chegando, brincam os taxistas, acho que dessa vez não chega nem nas quartas... Ninguém bota fé na seleção. Breninho é a salvação! Digo, tirando um ou outro do ataque, e aquele camisa 8 é até desenrolado. Mas parece leigo perto de Breninho. E cada dia tá mais próximo do dia das eliminações pra Copa... Bora, nação do futebol! Chegou a vez de Breninho. Nervoso como só ele antes de jogo, Breninho dá um beijo no rosário, faz a cruz e entra em campo.
E de novo e de novo, e a cada jogo o Brasil tá mais próximo de estar na Copa. Esse tá fora, aquele também... Brasil tá classificado! Boa, Breninho. Alegria, cervejinha no vestiário, oba oba, et cetera.
Assim começa a Copa. Quem não achava que o Brasil se classificava calou a boca, mas ninguém quer admitir que tá com esperança. Nem chega a ser esperança, é mais uma coceira. Um "eu tenho pra mim", um desespero num quase gol do adversário que revela toda a expectativa por trás. O jogo se desenrola, e Breninho, mais discreto que um goleiro ou um atacante artilheiro, mas simplesmente essencial, abre o caminho pro país de 1970. O esporte vai, pouco a pouco, puxando com mão de luva os brasileiros emaranhados, levando-os às arquibancadas, às pontas do sofá. E Breninho dando chapéu, eita Breninho! Oitavas, quartas. Tudo no papo!
Lá pra semana antes das semis, tava Breninho todo serelepe dando toalhada nos colegas, ganhando beijo apaixonado da mulher (que já tá sentindo chute!), que vida boa! É trabalho, é prática, é suor no cangote, mas é cada grito da torcida... É cada foto no jornal! Brasil tem BR de Breninho, e a vitória tem V de verde e amarelo, e...
- A proposta é essa - chiado de ligação à distância. - Cinco conto.
Os trinta na sala se olharam. Os titulares não olharam ninguém. Olharam pro chão, pra mão, pensando na vida. Breninho sensação achou que tinha errado.
- A proposta é o quê?!
Ele tinha ouvido certo. Cinco conto, repetiu o cara, com a maior cara de pau do século. O grito da torcida diminuiu. A bolha de cerveja onde Breninho, coitado, tava vivendo deu uma estourada de vez. A foto do jornal tava mudada. Mudou pra pior. Tchau pros imbecis de paletó, os titulares tão sozinhos pra "deliberar".
- É demais - camisa 8 acha demais. Demais pra recusar.
Silêncio. Nesse caso, silêncio de consentimento. Breninho tá chorando, cara, sussurra o goleiro. Ele não é o único.
No outro dia, a mulher inventou de fazer marmita. Bexiga de mulher, pensou Breninho. Amo mais que cinco conto. Beijinho na testa e na barriga, bem rápido que é pra não dar tempo de lacrimejar. Partiu pro campo. Hora da semifinal.
Deu pra esquecer, vei. Nesses noventa minutos, Breninho esqueceu da conversa de telefone com os ricaços. Esqueceu dos cinco conto e do futuro, das reportagens. Podia fingir que era do Brasil, só por mais um jogo. Fez o de sempre, até melhor.
Breninho maravilha!, gritou o locutor. Ficou a frase. Tinha fã clube do Breninho, cacete. E do time todo: todo mundo, à beira da morte, jogou feito anjo. O verde tava mais verde, o amarelo cintilava sob os holofotes. Tava tudo garantido, prometido, embalado pra viagem. Breninho chegou em casa com um sorrisão, o coração da mulher chega palpitou. Mas quando ela dormiu, Breninho da driblada sentou na cama e encarou o céu pela janela como um condenado.
Misera, pensou. Brasil tá classificado.
Os jornais o espremiam contra uma parede e apontavam o dedo na fuça dele. Cinco conto o quê, rapaz! Breninho tem BR de Brasil. B de bolão. B de bacana. Breninho Ippinu, garoto sensação, tá nas tuas mãos. Os cinco conto ainda tão na Inglaterra ou sei lá daonde vêm os ternos e charutos. O povo tá aqui, tá correndo atrás da tua van gritando teu nome, tá pedindo autógrafo e entrevista, tá nas arquibancadas balançando bandeira e chorando. O povo ta aí.
E a final também.
Breninho pisou com força. Lembrou do Ceará no passarinho que assoviava de algum lugar. À medida que se aproximou do estádio, sumiu o passarinho e todo e qualquer outro som junto com ele. Era só grito. Era só torcida. Rugido apaixonado. Atrás dele e ao seu lado, os companheiros de Breninho. Cada um com lágrima nos olhos, escudo no peito e dinheiro no bolso. Breninho incluso.
Beijão apaixonado, Isabela nascida com cento e um perfumes cheirosos de bebê, um quartinho só pra ela. Mainha e painho ricos, morrendo bem. Felicidade.
E, junto com ela, rugido, aplauso, todo tipo de ovação do lado errado do campo.
Breninho entrou no gramado compenetrado. Não ia deixar ninguém ver nada. Era ele contra tudo, até contra o passarinho, coitado. Cinco conto.
Ele só não tava contra o time adversário.
Breninho, que foi isso?, Locutor gritando. Breninho tava chorando, chorando feito besta, e todo mundo achava que sabia o motivo. Só quem tava no campo. Tudo cúmplice. Um a zero.
A chuteira derrapou. Camisa 8 perdeu a bola. O goleiro tava com barriga pesada, foi lento que só. Ah não. Dois a zero, Breninho apertava o escudo costurado na camisa. O coração tava espremido.
Três a zero. Mainha chorando, pensou. Mainha com a mão na testa, daquele jeito de sempre. Painho na ponta do sofá, esperando gol.
Quatro a zero. O locutor já falava diferente. O lado errado das arquibancadas tava gritando, pulando, uivando... Mais gol. Mais gol. Mais gol. Mais gol. Mais gol...
Teve nessa proporção. Breninho foi acudido cinco vezes. Tava passando mal? Convulsão? Problema nervoso? Má nutrição? Diarréia? Febre? Alucinação? Crise de pânico? Depressão? Bicho do pé? Refluxo?
Rolava no chão, o coitado, mas não saia do gramado. Arrancava fio de grama com as mãos. Camisa 8, miserável, tava chorando. Não era demais, hein? Não era sensacional, como Breninho sensacional, lá na sala de ligação? Quem tem o direito de chorar é quem não sabe de nada. Breninho olhou pra platéia com o rabo do olho, humilhado. Não merecia o perdão de nenhum deles. Inocentes. Eles, sim, mereciam chorar. Aqueles onze, cúmplices de um assassinato à nação, não.
Não, não, não. Breninho susurrava. Cada não, um gol, praticamente. Cinco conto.
Cinco conto, cinco gols. No total... Breninho Ippinu nem queria saber. Apagou da memória. Psicólogos dizem que é amnésia condicional.
Sou jogador de futebol, porra. Não sei disso não, dizia ele. Mas nem isso ele era mais.
A mulher, a mãe, até o pai (que ignorou o filho por semanas) não deixaram de amar seu ninguém. Mas nunca, nunca mais foi a mesma coisa.
Breninho Ippinu não foi o maior vilão da história. Teve quem jogou pior. Breninho Ippinu foi o menos mal, mas normalmente ele não é o "menos mal", ele é sensacional. É extraordinário. Abriu mão do seu dom por... pelo quê?
Por cinco contos. Cinco contos. Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis, disse outro com bras de Brasil. Breninho Ipinnu, coitado. Amou o Brasil por tanto tempo na cabeça e na chuteira amarrada... Mas na chuteira no pé, amou-o até o terceiro ano e... cinco milhões de reais.
Sensacional. Cê tem umas sacadas muito boas. Gostei da intertextualidade no final haha
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