queda e redenção

Violenta subida das águas sobre a grama,

o som tangido no ar da água em queda.

Cai como se tivesse fúria

(embora não tenha nada, posto que é água),

como se as rochas lhe injuriassem.

Por meio desse ódio estocado,

natureza vil das coisas,

cresce o despeito incendiário contra tudo.

O potencial em vertigem, totipotência do ser,

que se quebra em som antes de existir em qualquer coisa.

Nasce e morre em cinco segundos,

nada faz, tudo pode.

Nada faz, e de nada adianta tudo poder 

se morre de hora em hora e sem perdão. 

Sem perdão?

Como pode alguém viver sem perdão?

Uma vida besta, tão besta

que não tem graça.

A busca por qualquer alma vida

no mundo preto desolado

enquadrado na janela. A morte floresce

especialmente esperançosa

na alma que busca com mais afinco.

Será viver apenas isso, apenas queda?

Batalha e sangue; não há Graça.

( Há inveja, há náusea. Flor de náusea.

 Misericórdia? Não há.)

Passo em vento, em rio, em nada.

Catarata e quedas d'água estrondosas, dolorosas nas rochas.

Racha a cabeça contra a rocha o pobre pescador,

minutos depois de oscilar néscio na jangada de pedra.

Cai em silêncio e ninguém vê

- não lhe ocorre gritar -,

 sangue na água corrente.

O próprio pescador é nada menos que sangue na água corrente.

Nascerá de novo em peixe, fluido, peixe d'água,

manifestação do campo fluvial.

Um eterno jovem perdido,

infantilidade existencial que terminará inefavelmente

em sangue na rocha, 

sangue sobre rocha, fluido.

A água avança e come a margem buscando conteúdo.

O peixe d'água é um busca-vida,

quer mudança,

quer deixar a vida besta de ser manifestação.

Sonha em ser homem, pescador em jangada de pedra,

e pesca, rima bolhas com bolhas,

formando o perfeito poema do ser

que não é nada. Nasce,

cresce,

cai na cachoeira em cinco segundos.

Ninguém pensou perdoar o bichinho.

Ninguém estava lá, no mundo desolado.

Tudo vivo era o peixe  fluido.

Toda vida e todo objeto inanimado

nas guelras do animal: tudo ele em muitas vidas. Silêncio cruel do mundo que é um todo único.

Pescando, ele reflete, jangada de pedra prestes a encarar

a fatalidade da promessa. Reflete:

Estava ele, esse tempo todo,

só?

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