casablanca

 

Existe um preconceito forte com filmes noir, pelo menos comigo: penso que serão dolorosamente superficiais. Penso que o estereótipo do protagonista frio e masculino e do interesse amoroso unidimensional (ou uma femme fatale ou uma simplória loirinha) serão esticados ao máximo da sua mediocridade, com um previsível final de mortes por tiro de revólver com alguma lição de moral patriota. (Afinal, viva o sonho americano! ) Penso que o único atrativo de filmes assim é o quão "cult", eles são, o quão "importantes pra época eles foram" - mas que, para mim, como espectadora, nada terão de importantes.
 Recentemente, porém, devo dizer que tenho sido desafiada a mudar minha visão. E, se tudo o mais falhar, tenho ao alcance Casablanca, o imortal de 1942, pra provar o meu erro. 
(!!  spoilers  !!)



 O filme, dirigido por Michael Curtiz e estrelado por rostos inesquecíveis como Ingrid Bergman, Humphrey Bogart e Claude Rains, conta com técnicas muito únicas ao cinema da época. Poucos cenários, o uso quase barroco do jogo de luz e sombras e o enquadramento de todos os atores no frame são características marcantes do noir e vistas em outros filmes consagrados da época como Cidadão Kane. Referencias patriotas e o antagonismo da Alemanha são constantes e previsíveis, tendo em vista o período em que muitos dos filmes noir são criados — do entre guerras ao pós-Segunda Guerra, quando tanto Estados Unidos quanto Europa não estão nem perto de esquecer as calamidades que lhes partiram como um raio. 
 Contudo, nem só de um enigmático mise-en-scène e arquétipos americanos vive o cinema noir: a trama complexa, várias vezes explicada com flashbacks, e a filosofia existencialista escondida no filme são também partes fundamentais desse estilo de filme. E é principalmente na minha ignorância a esse respeito que mora, ou morava, o meu preconceito: a profundidade oculta dos filmes noirs, que, no caso de Casablanca, não é tão oculta assim. 
 O que ficou comigo após ver o filme é a dicotomia mundo-eu, causa coletiva e intenções pessoais, a frieza do mundo e a paixão da vida íntima. O próprio lugar geográfico Casablanca é como uma passagem entre esses dois mundos, um intermédio pra quem foge das atrocidades da guerra (que a todos acomete e iguala em uma só dor grupal) em busca de sobrevivência, de oportunidades de ter uma vida de paz, de sonhos, de felicidade pessoal. 
 Nessa cidade italiana, na qual transitam opostos polares como franceses judeus e militares alemães, vive Richard Blaine. Rick tem tanto seu sentimentalismo quanto sua frieza constantemente apontados por outros personagens da trama — ele doa para causas, facilita a fuga de refugiados da guerra e dedica-se muitas vezes ao "hobby caro" (como ele mesmo chama) que é o apoio ao fraco, ao desprotegido, ao lado que perde. Mas ele não deixa de ser o estoico protagonista noir, desapegado de mulheres que o amam e indiferente para com a maioria de seus colegas. Ele, como Casablanca, é território neutro, é um meio caminho, cujo coração parece pender para extremos sem muita previsibilidade. 

"O que ficou comigo após ver o filme é a dicotomia mundo-eu, causa coletiva e intenções pessoais, a frieza do mundo e a paixão da vida íntima."

 Sua fraqueza, contudo, é mais visível com a chegada de Ilsa Lund (o que ocasiona a cena mais conhecida do filme: "Of all the gin joints in all the towns in all the world, she walks into mine"), que, como descobrimos depois, é uma ex-amante com quem dividiu Paris no passado, e que lhe abandonou antes que pudessem se casar. Ilsa deturpa estereótipos femininos no cinema à seu próprio modo: não é a mulher maliciosa que trai e rouba aos homens que seduz, e também não é uma virgin pure que deixa os acontecimentos a levarem com uma mente boba e infantilizada. Embora, como personagem, continue sendo subserviente aos arcos masculinos (traço do cinema que persiste até os filmes contemporâneos), a personagem de Ingrid Bergman tem seu mérito por ter um mundo interior, uma mente que funciona independentemente da trama externa. Esse, inclusive, é um traço do noir: a profundidade psíquica dos personagens ao retratar como eles reagem, o que amam, o que temem frente a um mundo frio e indiferente.

 Parecidíssimo com ele, porém aparentemente oposto, é Victor Laszlo, francês líder de um movimento anti-nazista e escritor libertário, fugido do campo de concentração alemão. Ele parece ser totalmente abnegado, entregue à causa e livre de uma profundidade pessoal — o oposto do arquétipo de Rick, que, se não soubéssemos de suas participações políticas, seria apenas um egocêntrico e distante dono de um bar. Mas Victor, como todos e tudo em Casablanca, tem um duplo aspecto. Ele é apaixonado por Ilsa, musa que lhe inspira a lutar pelos seus ideais com seu amor e sua paixão. Ele, tanto quanto Rick, é evidência de dois lados que andam sempre de mãos dadas no ser humano: a vida íntima, os desejos primitivos e a vontade de ser amado; e a faceta pública, os desejos coletivos e a vontade de pertencer e lutar por um grupo. 
 Outros personagens são peças essenciais para essa trama, e tão bem escritos quanto os já mencionados, como o interesseiro e realista Capitão Reinault e o totalmente alemão "antagonista" Major Strassler. A integridade do roteiro e o realismo dos diálogos faz um serviço necessário ao filme, tornando-o não só relevante filosófica e politicamente, como também extremamente assistível. Em uma análise rasa, pode-se dizer que é pela junção desses dois fatores que Casablanca é considerado um dos maiores filmes do gênero e também de todo o cinema. 

"Esse, inclusive, é um traço do noir: a profundidade psíquica dos personagens ao retratar como eles reagem, o que amam, o que temem frente a um mundo frio e indiferente."

   Eu poderia falar da cena no aeroporto, a neblina no fundo perfurada pelas luzes fortes e a insegurança quanto ao que vem por aí. Poderia falar das cenas em que Rick e Ilsa se enfrentam, a sobreposição de texturas e o contraste de claro e escuro que tornam as cenas tão nostálgicas e românticas. Posso elogiar para sempre o roteiro inteligentíssimo e os diálogos que me prenderam, a genialidade da história — posso falar de tudo isso, e não estaria perdendo meu tempo. Mas preciso, acima de tudo, falar do que eu creio que é o cerne do filme, ao qual todos esses aspectos e essas qualidades servem e acrescentam: a questão humana do sonho. 

 Todos têm em si uma nostalgia, um instinto moral, uma autopreservação e um desejo de ser amado que combatem umas às outras pela predominância dentro do homem. As memórias de Paris de Rick e Ilsa, a moral à qual Strassler e Victor ambos se sujeitavam, a autopreservação à qual Reinault era totalmente obediente e o desejo de ser amado que a todos perpassa, porém mais agudamente ao triângulo amoroso de Rick, Ilsa e Victor, compõem um cenário existencialista completo em Casablanca. O que vale mais, que decisão Rick deveria ter tomado? Apegar-se às memórias em Paris, deixando Ilsa e Victor seguirem? Ativamente ajudá-los, arriscando seu próprio pescoço? Guardar Ilsa para si, deixando Victor à própria sorte? Juntar-se a Strassler e Reinault para capturar Victor? Fingir que nada havia mudado e seguir sua vida desapegada e solitária? 

 Não. Se havia algo que ele não podia fazer, é fingir que nada havia mudado. A partir do momento que Ilsa entrou no bar, tudo havia mudado — como diz a sinopse do filme, ele teve um "encontro com o destino em Casablanca". A vida nos proporciona diversos encontros, bifurcações no caminho de nosso cotidiano pacato, perante o qual não é possível não se posicionar. Casablanca é um estudo da paixão humana, uma questão jogada ao ar: o que é que mais te importa? O amanhã floresce qualquer que seja sua escolha. Como você quer que ele venha? Seja qual for nossa decisão, uma coisa é certa: muitas outras vamos ter que tomar. Se, em algum momento, nos sentirmos abandonados e indecisos perante um mundo duro, como os personagens no cenário da Segunda Guerra Mundial, se nos virmos com medo de nos apaixonarmos inteiramente por um dos caminhos que se nos apresentam, podemos sempre nos lembrar: "the world always welcomes lovers". 

 Não sei bem se consigo aplicar tudo à minha vida: sei que tenho medo de errar, medo das consequências de qualquer ato mais ousado. Mas, se tudo mais falhar, sei que sempre terei as memórias das escolhas que já tomei que fizeram minha vida valer a pena, como Rick e Ilsa sempre terão Paris.

— citações favoritas:

"you see me as only a man of cause, but you forget i'm a human being too." - Victor Laszlo

 "i'm no good at being noble, but it doesn't take much to see that the problems of three little people don't amount to a hill of beans in this crazy world." - Richard Blaine

"with the whole world crumbling, we pick this time to fall in love."  - Ilsa Lund

 "we'll always have paris." - Richard Blaine

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