gossip girl, opulência e projeção

 


  Tenho uma paixão por Net-A-Porter, vídeos de haul e revistas de moda. Algo no distante, em desejar o que não pretendo ter, em cultivar uma fantasia de possuir encanta todo mundo, seja qual for a idade, classe social e gênero. Nenhuma roupa é tão bonita, tão desejável quanto a por trás da vitrine. Nenhum estilo de vida mais invejável que o que não tenho. Sendo fútil do jeito que sou, sempre acompanhei séries como Gossip Girl e li livros como As Irmãs Sloane, e vez por outra me peguei pensando no porque esse tipo me é tão atraente. Claro, não sou a única — Gossip Girl foi um marco cultural, e conheço outras várias garotas que leram e gostaram de coisas como As Irmãs Sloane. Mas, como sempre, parto da minha experiência como ponto inicial, e, hoje, a viagem vai ser pelos meus cantos mais fúteis, superficiais e inatingíveis.



 Cresci com uma mãe extremamente pragmática. Roupas se compram quando as que se tem estão rasgadas e velhas, comida só se pede quando não tem nada na despensa e brinquedo só se compra quando os no armário se quebraram. Minha mãe, por mais linda e jovial, nunca se interessou por moda ou produtos de beleza — mal sabia trançar o meu cabelo. Não é como se eu tivesse sido privada de qualquer comprinha prazerosa na vida, óbvio. Mas, para minha eu ainda criança, ver colegas de classe sempre bem vestidas (sem nunca repetir uma roupa) usando perfumes comprados no exterior era quase desmoralizante. Desde cedo, criei em mim um complexo de inferioridade e um olho aguçado para coisas caras e bonitas paralelamente, um aspecto se alimentando diretamente do outro. 

 Por mais que eu tenha crescido e entendido que há mais sobre uma pessoa do que se ela veste marcas caras, algo naquela discrepância imensa entre onde eu comprava e onde minhas amigas compravam ficou comigo pra sempre. Creio que, mesmo que eu não tivesse estudado num lugar onde as pessoas eram tão mais ricas que eu, em algum momento da minha vida, como acontece com todo mundo, eu teria entendido o quão importante é o dinheiro e a imagem do dinheiro na sociedade. Não unicamente o que o dinheiro compra, mas o que ele poderia comprar, o quão feliz eu poderia ser com ele. Que a moda seja arte eu não discordo, inclusive advogo por isso — mas que ela é, acima de tudo, imagem e projeção, não se pode discutir. 

 Comecei a ver Pose na Netflix e me impressionei instantaneamente. A série retrata a cultura bailes, criada pela comunidade LGBT+ pobre e negra nos Estados Unidos, principalmente nos anos 80 e 90. A ideia é de celebração, espetacularização de uma realidade que, "no mundo lá fora", como muitas personagens chamam o mundo branco heteronormativo, é considerada suja e imoral, nada merecedora de celebração. Usando imitações de grife ou peças roubadas, com maquiagens que inspiram o drag contemporâneo, os frequentadores dos bailes desfilavam um status que não era deles; atuavam em papéis como empreendedores, esposas de homens ricos, modelos e atores, ocupando espaços que lhes eram tomados no "mundo real". Esse show de projeção artística, um faz de conta que se recria, não só imita a aparência do dinheiro e do status como cria uma versão diferente, um ato de rebeldia contra um sistema que fecha os olhos para quem o desafia. 

 Enquanto os bailes eram uma forma positiva e criativa de lidar com uma realidade hostil, fugindo um pouco da vergonha e discriminação diárias, algo semelhante a esse "faz de conta que acontece" ocorre com a suposta representatividade Hollywoodiana, embora obviamente de um jeito negativo e não criativo. O mito da representatividade, como é chamado, é a crença que, quanto mais negros, mulheres e LGBTs são vistos em papéis importantes e de destaque, mais igualitária é a sociedade em que se está. Que representatividade é importante não se deve discutir: o impacto que ver a si mesmo representado em uma figura positiva tem na construção da autoestima não pode ser subestimado. Mas, quando figuras como a de girlboss ou do personagem negro que serve ao arco do branco são usadas pela mídia capitalista (a mesma que se beneficia da desigualdade, em primeiro lugar), surge a pergunta: o quão real é a representatividade que se tem? 

"Esse show de projeção artística, um faz de conta que se recria, não só imita a aparência do dinheiro e do status como cria uma versão diferente, um ato de rebeldia contra um sistema que fecha os olhos para quem o desafia."

  Vê-se a importância da imagem na construção social da perfeição, do estilo de vida que de fato trará felicidade. Byung-Chul Han, em Sociedade da Transparência, escreve: "Hoje, o mundo não é um teatro no qual são representadas e lidas ações e sentimentos, mas um mercado onde expõem, vendem e consomem intimidades", e ainda "O que se busca não é poder, mas atenção; o impulso interior não é polemos, mas porno." Nessa obra, Han disseca o que considera ser a transparência na cultura e relações atuais, a cegante clareira e obviedade da imagem: o significado de tudo está exposto. Não há segredos, não há o "negativo", aquilo que não conhecemos. Há apenas a beleza aparente, a pornografia do corpo totalmente exposto, a intimidade vendida por muito pouco. 

 Na leitura de Han, corremos atrás do inteiramente unidimensional, da beleza tão transparente e industrializada que perde sua originalidade. Com medo de correr atrás de algo que se esconda de nós, algo que exija uma interpretação maior, aceitamos os parâmetros que nos são dados — e aí entra Gossip Girl. 

 A realidade é que quase ninguém que assiste a série, em sua maioria adolescentes e jovens adultos (principalmente mulheres), tem o padrão de vida que é ostentado pelas personagens. Julien Elisabeth, a protagonista do reboot, e seus amigos têm um visual mais moderno do que as icônicas Selena e Blair. Mas, mantendo o apelo do GG de 2007, são tão ricos quanto as OGs — compram em grifes como Loewe e Louis Vuitton rotineiramente, estudam em uma prestigiosa escola particular (num país como os EUA onde escolas particulares são somente para elites) e desfrutam dos mais fúteis e caros lazeres do Upper East Side, em Manhattan. Quantos dos espectadores da série podem dizer o mesmo? 

 O apelo de Gossip Girl vai além de roteiro, estética e relatability pros jovens. Esses aspectos são na verdade as qualidades principais e mais atrativas de shows como Euphoria. Gossip Girl, seja o original, seja o reboot, tem como marca registrada a opulência, e a capacidade de suprir em quem assiste o desejo pela beleza, que o sociólogo coreano Han destrincha, de um jeito inteiramente transparente. Ao assistir pessoas extremamente ricas lidando com as complicações de suas vidas e jogos de poder, pesquisando onde compram e o que comem, olhando para os personagens como inspirações de vida... Nesse processo, um mero fã da série se sente um próprio frequentador daqueles ambientes, comprador assíduo pelo Net-A-Porter, um estupidamente rico nova iorquino — nem que seja por alguns minutos.

"Gossip Girl, seja o original, seja o reboot, tem como marca registrada a opulência, e a capacidade de suprir em quem assiste o desejo pela beleza, que o sociólogo coreano Han destrincha, de um jeito inteiramente transparente."

 Por mais representatividade étnica que tenha (evolução em relação ao original), o novo Gossip Girl consegue ser ainda mais voltado para essas superficialidades; representa uma cultura que cresceu cada vez mais direcionada a esse ter, e ter de forma irracional. Por ter um plot significativamente mais simples, no qual a identidade da gossip girl é revelada de primeira, pouco resta do mistério e da intriga que permeavam o enredo original. 

 O apelo é claro: a estética do dinheiro. Assista a série e projete todos os seus inalcançáveis desejos de possessão, sonhos de consumo e de estilo de vida. Sinta por um segundo, de forma parasocial, que é o que se deve querer ser num mundo capitalista: rico.

 Entende-se, daí, o porque (ou um dos "porques") de eu acompanhar a série. O plot novo consegue ser mais ridículo que o inicial, com o adicional revés de não ter os rostos conhecidos de Blair Waldorf, Nate Archibald, Dan Humphrey etc. Reconheço essas falhas, critico-as e quase penso em parar de ver a série praticamente uma vez a cada episódio. Se eu de fato fizer isso, talvez acabe só procurando outra que aplaque esse desejo de consumir, o apego à moda, o encanto pelo muito caro. 

 Cresci com uma mãe racional e prática; cresci aprendendo a não gastar, a não perder tempo querendo o supérfluo. Será tão errado, afinal, direcionar toda essa futilidade pra um canto só? Me sentir rica sem gastar um real? Dá pra analisar os danos sociológicos dessa cultura do consumo, sim; dá também pra ver os efeitos práticos negativos dela, inclusive os que ela tem em mim. Mas, por enquanto, fico na superfície. Fico, encantada. Talvez aja uma beleza oculta nessa transparência clara do "quero isso!" — como, também, talvez uma série tão magnética tenha na superficialidade seu próprio mérito. 

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