a mão que balança o...
a remadora no fim do expediente
rema fria e lânguida
por sobre águas frias e lânguidas.
fere o rio em sua passagem.
em tudo, há silêncio.
as pessoas estão tão cansadas,
as histórias já foram contadas tantas vezes...
guiando fregueses,
a remadora ouviu as mesmas músicas
em valsa e glosa e serenata
sobre o fundo iluminado
do monótono embalo
das correntes.
ela se vê cheia, absurdamente cheia
de sentimentos que não a pertencem.
os remos de madeira escura
fendendo a superfície,
o balanço cadenciado da barca azul,
uma mulherzinha velejando ao cair da tarde.
ao longe, o carteiro assobia,
toca o sino de sua bicicleta.
os sons vêm do nada.
com concentração, a mulher fecha os olhos
e se perde: ela é o sino da bicicleta,
ela é o assobio do carteiro,
ela é o remo contra o rio.
cheia, absurdamente cheia.
há alguns meses que ela não fala
palavra além das obrigatórias:
bom dia,
boa tarde,
o passeio é dez reais.
há tempos ela não tem um pensamento
elaborado, começo meio e fim
que não seja:
agora é a hora em que digo
bom dia,
boa tarde,
o passeio é dez reais.
chega em casa do trabalho,
as velhas costas doloridas,
o corpo roliço cansado e faminto.
se há pão, come.
se não há, toma café
e dorme. quando há visita,
houve rumores e músicas
quase sempre em silêncio.
- despertam-lhe alguns pensamentos, essas visitas.
como andará o filho de...
será que o preço do...
essa música, de quem...
nunca os termina.
aguarda sempre, ansiosamente,
por uma interrupção.
sua vida é alegre, talvez.
vale a pena, quem sabe.
mas, quando chega a noite,
há um instante de angústia tão aguda
que a mulher quase chora.
não há som, nesse instante
não há rumor ou música
ou o gorgolejar do rio
contra as pedras.
a lua ilumina os brancos lençóis
que hoje pouco têm de brancos
o vento úmido balança a persiana
e em sua apertada cama, sozinha,
há a remadora... a nada se apega.
nada passa por sua alma
e se prende...
sente os músculos tesos e os calos nos dedos
como lembranças distantes;
vê o luar e sua gasta mobília
como que através de uma neblina.
não há definição: a única certeza
é ela mesma.
quanta agonia! às vezes,
chora:
mas, quem...
e então, por que eu...
a vida, será que...
amanhã, serei eu...
alguém no mundo me...
não encontra interrupção para seus pensamentos,
mas se impede de terminá-los
com dedicação
e profundo temor.
o que será, o que será de mim
se um dia eu enfim...
cuidado.
ufa!
por pouco ela termina essa frase.
é importante acreditar:
não há o que procurar.
nada lhe falta nesta vida.
o que tens é o que lhe cabe:
uma remadora no fim do expediente
rema fria e lânguida
por sobre águas frias e lânguidas.
fere o rio em sua passagem.
em tudo, há silêncio.
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