estar sempre de passagem

  Independente da minha situação, sempre que vejo um avião cruzar o céu, desejo ser um dos passageiros. Quero me tornar um espaço de tempo, uma expectativa, uma mudança em curso... Um viajante está sempre prestes a se surpreender. Não há olhos sobre ele — ou, pelo menos, não há olhos pesados e demorados —, mas seus olhos estão sobre tudo, famintos. Ele se torna, afinal, um par de olhos desnudos. Ele vai a lugares. Ir a lugares significa me tornar algo. 

    Tenho um coração bastante esfomeado. Meus olhos querem muito pousar em algo com muito, muito carinho, e se perder. Sempre penso que há um lugar melhor para ir e pessoas melhores para amar e alguém novo para ser... então, quando noto o vermelho cintilante patinando tranquilamente no meio do ar, quase como que carregado por cordas invisíveis, me pergunto: perdi algum chamado? Eu não deveria estar lá, também? Não há vidas mais altivas, em estratos mais distantes, esperando por mim?

    Não dou muita importância a chegar a algum destino, na verdade. Só preciso sentir que estou indo, estou alcançando, quase lá. Há segurança nesse movimento. Nesse vai e vem de estar vivo, ser humano, tentar. Coexistem tranquilidade e ambição; não estou no controle do avião ou do carro, mas estou dominando novos territórios, de toda forma. Não seria essa sensação, se fosse genuína, belíssima? Ser levada por fios invisíveis por dimensões, por vidas inteiramente novas e eternamente orbitantes? Acho que eu jamais me sentiria sozinha de novo.

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