ninfomaníaca e a angústia
Nada consegue ser tão violento quanto se submeter ao prazer, pois traz consigo uma única promessa: a de insatisfação. Tristeza, vazio, até o próximo estímulo.
Isso porque a sexualidade, em sua natureza, é uma força de manifestação no mundo. Em muitas religiões e espiritualidades, a sexualidade é vista como um poder de realização, e trazer coisas à tona, de criar e jogar no mundo energias pessoais das mais primitivas. Para os gregos, sexo era considerado parte do ritual, que, por sua vez, era parte da vida. Vivência, sexualidade e arte eram um todo indivisível. “O sexo era natural, divino e sempre era realizado como forma de adoração. Não era descriminado e o senso de pudor não existia porque não havia o 'não-divino' na sexualidade grega” (CROWLEY, LIGVORI). Na própria lógica cosmogônica grega, o sexo, observado na natureza como fonte da vida, está presente em cada etapa: a união de Gaia e Urano, gerando os titãs e os arquétipos; a castração de Urano, cujo esperma originou a forma primordial de Afrodite. Do Caos, do Nada, foi a união de opostos, foi o sexo que trouxe ordem e vida. Deusas e deuses da fertilidade eram homenageados em múltiplas partes do globo simultaneamente ou em épocas distintas, dos maias aos egípcios, dos guaranis aos romanos, dos vikings aos filipinos nativos.
Em muitas áreas da magia, o sexo é um instrumento canalizador de energias e força vital. "Sex magic is a way of raising your creative, dynamic sexual energy and using that to fuel your intentions", diz Skye Alexander, autora do livro The Modern Guide to Magic. O autor de Modern Sex Magick lembra: "In the earliest days, it was clear that sexual practices and sex magick were far more widespread and accepted than they are today." Há evidências dessa prática em Roma, na China e na Índia, além de rituais indígenas americanos que envolvem a perda da virgindade como cerimonial.
De forma geral, percebe-se a conexão íntima do prazer físico do sexo com a busca por sentido, por uma explicação cosmológica para a existência. Sentir alegria, sentir satisfação física traz acalanto, traz conclusão e fechamento à vida - por isso é um elemento recorrente na religião, cuja função base é justificar a vida. A ideia aristotélica do sentido da vida existia bem antes do próprio Aristóteles, permeando as versões prototípicas da "vontade de potência" Nietzscheana — o gozo sempre foi a força motriz da vida. Freud reitera essa visão hedonista ao basear a experiência psíquica humana no prazer e no desprazer, desde as fases iniciais da vida até o fim dela. O ser humano clama, como Joe insistentemente pede: "preencha todos os meus vazios, por favor".
A ideia aristotélica do sentido da vida existia bem antes do próprio Aristóteles, permeando as versões prototípicas da "vontade de potência" Nietzscheana — o gozo sempre foi a força motriz da vida.
A ideia aristotélica do sentido da vida existia bem antes do próprio Aristóteles, permeando as versões prototípicas da "vontade de potência" Nietzscheana — o gozo sempre foi a força motriz da vida.
Mas nada é simples assim. Religiões, especialmente de viés judaico-cristão, demonizaram o prazer com tamanha veemência e alcance cultural que o sexo continua sendo visto por lentes extremas, mesmo em um mundo gradativamente mais ateu: especialmente o sexo como atividade feminina, guiada por uma mulher para o prazer da própria mulher. Uma atividade fundamentalmente natural, portanto, se torna dividida em extremos: o extremo da culpa puritana e o extremo da devassidão descontrolada, associada socioeconomicamente ao luxo e poder, mas cuja conta é sempre paga pelo lumpenproletariat.
Nesse contexto tecno-científico, outro aspecto dificulta a livre vivência do sexo e do prazer: a simulação. Com a pornografia e o sexo virtual, nos quais a intimidade é explorada e vendida, não há experiência pessoal, não há contato verdadeiro, não há entendimento ou epifania. Baudrillard explora em sua obra Simulacra and Simulation justamente o vazio doloroso provocado por esse falso sexo, essa simulação de carinho, afeto, satisfação. Buscando algo verdadeiro, a única verdade encontrada por 5 a 8% dos adultos viciados em pornografia é a da falta de prazer genuíno, de experiências pessoais que desafiam, que constroem, que reformam. A simulacra do falso sexo aponta para o verdadeiro desespero, a verdadeira solidão de seres humanos cada vez mais isolados e desesperados por conexão genuína — seja com os outros, seja consigo mesmo (afinal, o sexo é, também, autoconhecimento).
Como nos sentir menos sós, então? O prazer, especialmente quando experienciado no contexto coletivo, nos lembra de que existimos, e de que não existimos de forma solitária e abandonada, mas em relação a — que somos, no fim das contas, um todo. O gozo é, afinal de contas, la petit mort, a manifestação física de uma morte do ego (ego death), um protótipo de instrumentalização (o que explica em partes a cena infame de The End of Evangelion - assunto para um próximo ensaio). É a vida fazendo o que faz de melhor: se expandir, galgar, se reafirmar como força ao lembrar do sempre-presente fio de barbante da morte iminente, do colapso em nós mesmos a nós prometidos desde o início dos tempos. A certeza de uma culminação, de um clímax, que é ao mesmo tempo vazio de explicação e fornecedor de sentido para tudo o que há e tudo o que nos ocorreu. Mas, se o sexo é tão deformado nos dias de hoje, como podemos acessar os segredos e as lições que somente a sexualidade nos pode ensinar? Como entrar em contato com o lado de nós mesmos mais essencial, puro, primitivo? Em uma sociedade sempre doente, o sexo é sempre doente.
O prazer, especialmente quando experienciado no contexto coletivo, nos lembra de que existimos, e de que não existimos de forma solitária e abandonada, mas em relação a — que somos, no fim das contas, um todo.
Lars von Trier, polêmico como sempre, é o diretor perfeito pra abordar um assunto tão complexo e cheio de camadas, com uma visão holística cheia de metáforas e uma direção crua e sincera. Do roteiro com final pouco esperançoso à ambientação simples e restrita, muitas camadas da experiência feminina, da doença de Joe e das reações da sociedade a ambas são exploradas com a técnica e a poesia necessárias. Muito poderia se falar de cenas específicas — o orgasmo espontâneo, a traição da mulher interpretada por Uma Thurman, o aborto, as experiências com três amantes distintos e como o sexo impacta as relações —, mas Ninfomaníaca volumes 1 e 2 é uma obra melhor apreciada na prática, em uma relação íntima e pessoal... como, ironicamente, o próprio sexo.

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