antivida de norma

  


 um devaneio sobre Marilyn, pulsão de morte e o Absurdo.


 acho que uma das coisas que mais me impressiona sobre Marilyn Monroe, figura pela qual sou obcecada há um bom tempo, é o quão fugidia ela é de qualquer compreensão. certamente, grande parte desse mistério se dá graças ao seu tempo, sua fama e sua beleza: qualquer artista famoso, atraente e antigo tem todo um mythos que o envolve e o ressignifica.

 mas, quanto mais leio e descubro sobre Marilyn, isto é, Norma, mais penso que há algo de mais velado e hermético sobre ela do que sobre qualquer outra figura pela qual me encanto ou já me encantei. seu mistério está no seu silêncio, na sua calculada vulnerabilidade, na sua intenção fantasiosa. 

 ela era incapaz de viver. estava sempre aérea, devota a seu papel, insatisfeita com a existência e seus preços. tudo a cansava enormemente. isso se fez claro ao longo de toda sua vida - sendo descrita como "extremamente introvertida" e "sempre um pouquinho distante" por conhecidos, amigos, amantes, instrutores e colegas de trabalho.

 Norman Mailer diz, na sua biografia literária "Marilyn" (que inclusive em muito motivou esse texto, com suas ousadas análises pseudo-psicológicas e extremamente líricas sobre os fatos e factóides de Marilyn) que ela retornava de seus relacionamentos "ao entorpecido centro daquele navio psíquico que navegava sem leme". culpa seu tedioso tempo no orfanato, que a teria munido de ressentimento contra a existência que a subjugou por tanto tempo ao anonimato e à inutilidade; culpa sua loucura geneticamente comprovada, com uma mãe psicótica e avó raivosa; culpa até mesmo sua alegada falta de inteligência, sobre a qual diz, friamente, que Marilyn tentava pensar como um ser sem pernas tenta andar. 

 creio que Marilyn seja tudo isso, e também nada disso. creio que o que lhe faltava de inteligência não de fato lhe faltava, mas vinha de uma resoluta decisão de não se exercitar. o que é o pensar, afinal, além de um fazer-se existir? de um tornar-se consciente, e, consequentemente, tornar-se? se Marilyn vivera anos de tédio extremo, nos quais sentia uma alegada vontade insatisfeita de chamar atenção para si (supostamente, dissera ter vontade de "tornar-se tão bonita a ponto de todos pararem para me ver"), faz sentido que lhe tenha faltado uma pedra basilar e inconsciente, que sustentaria e justificaria toda a existência e lhe motivaria a ser, pensar, dizer e sentir. faz sentido que ela tenha, desde o começo, voltado contra si mesma como uma doença autoimune, como uma antipessoa. como, no fim das contas, uma atriz.

 (por que o que é, afinal, a atuação além de uma anulação de si mesmo parcialmente satisfeita? uma projeção subconsciente que, ao mesmo tempo, busca desesperadamente motivos para ser, ao mesmo tempo em que declara a insatisfação com os motivos que já lhe foram dados no corpo do ator, na vida do ator? ele não se satisfaz em ser o que é. quer, precisa, de mais.)

 por que outro motivo teria tantos problemas com o sono, o irmão da morte ("sopor fratrem mortis est")? por que mentiria tanto sobre cada aspecto da sua vida, buscando sempre ser mais interessante, mais importante, do que se sentia? por que teria tanto medo da solidão, e, ao mesmo tempo, se manteria tão a parte de tudo e todos ao seu redor, psiquicamente?

 logicamente, grande parte das presunções a respeito de sua relatada "frigidez" e distância podem ser meras insatisfações de parceiros, que, esperando relacionar-se com a bombshell ingênua e enérgica que viam nas telas, encontravam em seu lugar uma mulher pouco interessada na consumação das suas mil e uma promessas. talvez grande parte dessa pouco esperada castidade seja somente fruto de ressentimentos de hollywoodianos patéticos que esperavam usar Marilyn ao máximo de seu estereótipo, para exibir seus feitos e ditos diante dos amigos como troféus. sem dúvida, ao menos parte do que se fala sobre essa inesperada timidez tenha se dado somente porque Marilyn não era tão interessada assim nos seus parceiros - ao menos não tanto quanto eles eram interessados nela, ou no que achavam ser ela.

 mas não são somente parceiros sexuais/românticos que descrevem Marilyn como aérea e calada. professores e amigos e até funcionários do orfanato a pintam como uma criatura que vive às margens da inconsciência, em um torpor quase natural. de acordo com Mailer, "essas complicações eram parte integral de seu talento. E descreviam uma jovem presa em alguma terra do nunca da inconsciência".

. . .

 acho até automático lembrar do impulso de morte da teoria freudiana. 

 um alerta importantíssimo: não considero qualquer teoria freudiana como verdade no sentido estrito do termo, mas, como desacredito de qualquer verdade por princípio, considero-as úteis no meu sentido da palavra: literariamente interessantes. teorias que oferecem uma perspectiva mitológica, artística, multifacetada da vida. que nos aprofunda, mesmo que como uma droga psicodélica pode nos aprofundar, isto é, temporariamente. se nada é real, me interesso somente pelo que é belo. 

 tendo dito isso, o pouco que sei sobre o conceito de impulso ou pulsão de morte me remete a algo de muito Lispectoriano: 


Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva.
Transfiguro a realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria.

 Nunca se inventou nada além de morrer.

 A tragédia de viver existe sim e nós a sentimos.

 

 tudo isso é apenas um fragmento da passiva lírica necrofílica de Clarice, que se encanta não com a morte de outrem, mas com a própria - que remete à associação morte-gozo do francês petit mort, que reinventa a consumação da vida que a dá sentido de todo ultrarromântico, que busca à aniquilação como a Obscena Senhora D. busca seu Deus.

 o mistério da pulsão de morte se esconde em sua explicação psicanalítica como o significado do poema se espreme entre suas sílabas calculadas. diz Freud: "vigora no homem uma necessidade de odiar e aniquilar". vêm à tona, então, a ego-distonia, a saudade (que destrói ao buscar reconstruir) e o suicídio, imediato ou lento. de acordo com artigo da Psicanálise Clínica:

 

A pulsão por morte mostra caminhos para que um ser vivo caminhe em direção ao seu fim sem interferência externa. Dessa maneira, retorna ao seu estágio inorgânico do seu próprio modo. De forma poeticamente fúnebre, o que sobra é o desejo de cada um morrer ao seu próprio modo.


  removo-me de observar o massacre, o genocídio e o sadismo, assuntos talvez para outro devaneio. me apego à ego-distonia, ao masoquismo, à vontade Lispectoriana de se remover da vida. 

 no caso de Monroe, essa remoção é artística. é não somente atriz, mas artista da vida, roteirista de seu fracasso, diretora de cada ato que tenta subtrair qualquer paixão, qualquer vontade, qualquer traço de Norma em si mesma. não a satisfaz ser quem é, pois sente que não é ninguém. não é nada. precisa tornar-se uma lenda. precisa ser um ato. cansou de ter agência sobre sua persona - precisa entregar-se 100% a um papel. as telas não bastam. "era uma presença", diz Mailer, "era ambígua. era o anjo do sexo, e o anjo estava em seu distanciamento". 

 pra quê ser uma pessoa, quando podemos ser uma história? pra quê sofrer as dores e a solidão do Eu, quando podemos nos diluir até sermos uma fantasia do Outro? talvez Marilyn tivesse cansado de ter que sentir e existir em todo momento. talvez quisesse ser um boato. talvez observasse as pessoas ao seu redor e pensasse, subconscientemente: "olha como são satisfeitas! olha como parecem tranquilas! e se eu pudesse ser como uma pessoa que não sou eu? uma pessoa que não pensa a menos que fale? uma pessoa sem vida interior observável? e se o Eu não mais existir?"

 afinal, uma celebridade busca, em meio a dinheiro e reconhecimento, esse aniquilamento. lançar o conturbado e nada glamuroso mundo da interioridade psíquica no esquecimento, tornar-se uma casca de uma pessoa. não é esse o Absurdo de existir, Camus? é a ausência completa de sentido nos sofrimentos internos do Eu, aplacada somente pelo reconhecimento externo. não é o Outro uma das poucas coisas que justifica o rolar e deixar cair da rocha de Sísifo? faz sentido, portanto, que Sísifo queira livrar-se da rocha e tornar-se somente um objeto do Outro: uma lenda que existe quando o Outro nela acredita, um boato que só é quando é percebido. em suma, um Ídolo. talvez um sex symbol. talvez Marilyn Monroe.

. . .


 sigo amando profundamente Marilyn, ou a imagem que tenho dela - que é, afinal, o que ela mais queria. ser amada enquanto imagem. 

 talvez muito sobre mim mesma fique revelado na minha escolha de tema, de palavras, de conclusões. como eu gostaria de ser somente isso: uma escolha de tema, de palavras, de conclusões. como eu gostaria de ser somente um post em um blog.

 

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