amaraji

    a escola na frente de casa fechou. não demoraram pra raspar o letreiro que dizia “raízes”, seu nome. uma ensossa placa de vende-se vende o espaço azul, onde teve areia azul, eu lembro que eu vi, que eu brinquei na areia azul. ou foi minha irmã? não sei. as crianças gritavam e riam nos intervalos e eu ouvia da minha janela. prontamente pensava: brincam na areia azul. brincamos todos na areia azul. 
    uma escola chamada raízes entre altas mangueiras. as mangueiras da minha rua, pitorescamente, se curvam sobre as ruas de tijolo. o mundo fica todinho verde, é uma bela visão. deve ser bom ser criancinha nesse todo verdão, o canto de passarinhos cujo nome ninguém lembra, a manga caindo do nada no fim de tarde e quase acertando a pobre da criança, a areia azul detrás da unha. fincar suas raízes nesse asfalto-mato-morto-vivo e crescer, crescer bem muito, se espreguiçar sem pressa nem preguiça atééé virar mangueira e se jogar em cima da rua, cobrindo o céu com seu galho, seu tronco e suas mangas. cada manga tem seu tempo. 
    fico sempre triste quando vejo um negócio que fechou, mesmo que nunca tenha ido. queria achar que os sonhos nunca vão dar errado, que nenhum café que você sonhou em abrir ou loja de roupa que queria ter ou escolinha que seu tataravô fundou iria ter prejuízo. sendo escola é pior, acho. nunca mais vão fincar as raízes ali, as mudinhas de mangueira tão brincalhonas. não sei o que me aguarda, o que vou ver quando abrir a janela e olhar pro outro lado da rua. um consultório. um salão de beleza. outra escola, até.
    nunca mais raízes, acho. mas as mangueiras tão lá, vivíssimas. então, talvez, sempre raízes. acho.

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