casa de bia

    dia desses no Bar do Iraq, me peguei observando os elementos que compunham a experiência do lugar. o dj tocava remixes de Tame Impala. tudo é à meia luz, e uma meia luz essa que é sempre neon. as paredes parecem cair pra cima de você, descascadas e grafitadas, nenhum espaço branco à vista. sem óculos, então, é que tudo ficou parecendo um borrão, um barulho alto no escuro, uma mão chacoalhando a minha cabeça. o que que se quer quando se vai pra lá? o que as pessoas esperam da noite que elas passam ali? o que as faz voltar? pensei em como essas experiências são construídas. a textura do sofá numa cafeteria. os cartazes num corredor do cinema. a arquitetura do restaurante universitário. se tudo ali foi pensado, pincelado como tinta num quadro, o que se passa na cabeça de quem pincela? a experiência é o encontro de quem planeja. com o cliente/observador/espectador. me interessa puxar a cortina que divide o mágico de quem vive a mágica. me interessa criar uma experiência como um músico cria uma música - com cuidado, com loucura, com zelo. escolher as velas, a toalha de mesa e a playlist pra receber os amigos em casa. planejar o roteiro de um sábado, separar as roupas, fotografar os outros. tanta gente já pensou: e se eu tivesse um bar? e se eu abrisse um bistrô? e se tivesse uma loja? e se eu tivesse que escolher as plantas, o tapete, o incenso, o programa de TV que ninguém assiste pra colocar num restaurante qualquer, o que escolheria? como os as e os bs do alfabeto dos ambientes forma palavras? quero puxar a cortina pro canto. quero olhar pra quem me olha, quem me olha olhando as coisas que fizeram pra que eu olhasse. sabe? a gente vai criando experiências uns pros outros, isso é uma coisa humana. vou criar um lugar no qual as pessoas dançam, suam, bebem, brigam, beijam, gritam pra poder conversar. chamo isso de bar. vou criar um lugar polido e respeitável, com velharias que gente morta fez há muito tempo, velharias lindas, até meio emocionantes, por onde os vivos possam caminhar olhando ao redor e pensar na gente morta que fez aquilo ali. se chama museu, por sinal. quero ser uma criadora de experiências! criar um cantinho. criar um momento. criar uma noite. criar uma história na vida de alguém que, quem sabe, mude muita coisa. uma magia que eu viva, também, afinal. quero ter que definir a cor do vaso da planta da entrada e o pôster atrás da mesa do dj. quero escolher a dedo as notas da música. que as pessoas possam ser tocadas. que elas sintam, mesmo sem me conhecer, um pouco de mim em um momento que eu criei, com - e isso é o mais importante - todo o carinho.

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