deus de costas

  não é bem um medo, é quase uma certeza. ela eu carrego comigo desde que nasci, herdei de alguns antepassados meus. de tantas heranças, a que me coube foi essa neurose. o mundo vai me empurrando não sei pra onde, e não importa o quão rápido eu corra com minhas perninhas capengas, não tá rápido coisa nenhuma! deus vai levando nos braços cada pessoa, com a velocidade que só o divino tem, e me reserva unicamente a visão das suas costas. sempre viradas pra mim. a certeza que herdei é essa: tô sempre ficando pra trás. 

 de vez em quando é boa essa visão traseira do divino. quando vejo a disparada dos meus amigos, da minha família e de quem mais mereça coisas boas, me sinto privilegiada por testemunhar de perto. deus já deve tar de saco cheio de mim - fico feito papagaio no seu ombro, querendo bisbilhotar os futuros brilhantes que ele reserva pra quem eu amo. sou ansiosa sempre pelo desfecho. se pudesse, eu mesma tirava do soberano a soberania e escolheria com força cada amigo, amado, amor meu pra ganhar uma alegria qualquer. às vezes torço até pra que tenham sonhos bons quando dormem.

 mas essa visão é sempre terceira. o que o futuro, o destino, o divino me prometem, se prometem algo, eu não quero. se todos correm, eu rastejo. se vencem, eu apenas torço. se sabem, eu me permito somente sonhar. porque tudo que eu ganhei eu não enxergo mais - herdei o torcicolo mental de só olhar pra frente. eu quero mais. eu queria merecer mais. queria que alguém me dissesse que eu mereço mais. que tem coisa lá na frente pra mim, que eu não preciso mais viver anêmica, à base de sonho e talvez. que eu tô indo. que eu tô indo bem. que não tá faltando nada, e o que tiver faltando eu abocanho já já, só esperar, calma, menina, só esperar que tá vindo, calma porque você fez por onde, calma porque você é boa. o tipo de coisa que nem eu consigo me dizer. o tipo de coisa que, se eu falar em voz alta, a voz me é estranha. não é minha e nem fala comigo. pra mim, tenho certeza, tá reservado o silêncio.

 e essas costas de deus que não lança nem um olhar por sobre o ombro, só pra ver se eu não tropecei. nem isso. se ele olhasse, veria que a menina que ele botou na barriga de uma mulher há anos agora é só esse monstrengo meio torto, meio quieto, que anda mancando com os olhos cheios de raiva. de ingratidão. de cadê, deus?, quando é minha vez, deus? olha pra mim, deus!. de não aguento mais, deus. caminhar com minhas próprias pernas não dá mais, deus. não consigo ver nada no fim. não mereço nada no fim. nem me perdoa, deus, nem perde teu tempo. olha pra mim, deus, só pra eu te dizer pra não olhar mais.

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