sol pegando cão

 sol pegando cão. domingo vento e rádio são coisas que pertencem ao mesmo mundo. 

 sempre acreditei demais na infinitude do animal e talvez por isso a realidade me seja tão sofrida. contra todas as probabilidades, fingi que eu era tudo, que eu era essa música despótica que controla nossos movimentos e nossas imagens. eu abria os olhos mas não eram eles que enxergavam, era a voz de fundo das coisas, que emana dos pelos do cachorro aquecidos no sol da manhã e que desliza feito umidade no focinho do cão e que constrói sem pressa a lufada de vento que vai curvar a esquina amanhã às cinco da tarde. imagine uma criança em seu cavalo de pau se pensando grande cavaleiro que circunda o globo num piscar de olhos. era eu nas rédeas do universo, imaginando tudo que ia acontecer e, com todas as maiores pretensões, acreditando que nessa brincadeira eu criava o que seria.

 é fácil fechar os olhinhos cansados de tanta queimação diurna e pensar numa orquídea. descobri que a baunilha é uma. descobri que tem uma orquídea que parece uma fada cor de rosa. cor de rosa não, cor de orquídea. veja, criei essa orquídea - não é a orquídea que já vi, nem qualquer uma que você já viu, é uma outra. se eu forço seus detalhes perco seu todo, e com seu todo em mente não existem detalhes. é um fato aéreo e nebuloso. nesse exercício, concluo, construo quaisquer coisas nebulosas como castelos de vento que nada demole. construo um dia de amanhã em que faço e vivo aquilo e aquilo. construo uma pessoa que tem uma beleza que não existe, uma feiura que não se vê nesse mundo e uma voz que não consigo imitar. construo um momento em que alguém me perdoa e em que sinto uma mão apertar a minha, e nem a minha nem a que não é minha são minhas, e nem não são minhas, porque são de outro conjunto de objetos. pertencem a outro lugar.

 o que aconteceria se eu trouxesse para esse mundo uma construção de dentro de mim? acordo com a orquídea na barriga. o que eu sentiria? ela murcharia? alguém a veria e tocaria? se eu a pegasse na mão e a girasse como um peão, despertaria algum instinto maternal dentro de mim? minha criação. meu pensamento. eu. algumas mães têm filhos por acaso, mas eu teria pra estar menos só. para me colocar mais nesse mundo. para me confrontar mas para também confrontar algo que não é eu. talvez, porém, o filho me confrontaria com a solidão mais verdadeira e incontornável que tem. posso criar vida e colocá-la do meu lado, mas a distância entre nós seria a mesma distância intransponível entre eu e eu mesma. nem brincando de deus eu fujo dessa desumanidade. nem fugindo de mim eu me encontro. por que a mãe fica triste ao parir? 

 no segundo dia, eu traria um cisne, já que nunca vi um. pra ver que tipo de quase-cisne consigo imaginar. talvez seu bico fosse preto, talvez marrom. talvez fosse maior do que qualquer cisne que já existe. talvez eu nem consiga entender seu formato, nenhum dos seus traços seja distinguível no borrão de imaginação que eu trouxe pra cá. talvez fosse algo de dar medo. talvez me atacasse. e se eu tivesse que matá-lo?

 pior ainda: e se eu o trouxesse já morto?

 no terceiro dia, eu tentaria trazer algo mais útil: dinheiro seria bom. algo que eu posso entender. traria talvez um número - um é um bom começo. colocaria um em qualquer lugar. boto no chão e tenho um piso. boto no ar e sinto um vento. boto na boca e algo me desce na garganta. 

 tentaria trazer qualquer coisa mais palpável. um cachorrinho. o cachorrinho que tive e que morreu. faria esforço pra trazê-lo vivo. fugiria ao máximo do fato ocorrido e me firmaria no que já existiu uma vez, quer dizer, no que acho que existiu. acho que um dia ele esteve vivo. 

 eu tentaria trazer qualquer coisa que não me entristecesse. tudo que crio me lembra de mim e não tem dor maior. trazer uma música inventada mas que outra pessoa inventou, com uma voz de qualquer pessoa que não seja eu cantando, os dedos de qualquer outra pessoa tocando um violão. traria até possivelmente um corpo novo pra eu habitar, um corpo com memórias e sentimentos que me sobrepusessem até eu me dissipar nessa nova criatura e me manter entretida com sua logística e seus processos. até eu me lembrar que existo de novo.

 eu tentaria. mas eu tenho certeza que, por mais que tentasse, traria apenas uma coisa no meu terceiro dia. acordaria segurando, na mão esquerda, uma mão - uma mão que nunca segurei e que nem posso. ouviria a respiração que não consigo ouvir, a voz que de dentro do crânio nunca consegui entender. sentiria o cheiro de um corpo que, por mais que tente, não encontro. 

 traria eu mesma de volta ao mundo, disforme e incompreensível. me dobraria do avesso.

 

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