uma panela
tem alguém me vendo? não é isso que importa, na verdade. vamos ser sinceros nas perguntas. tem que ser aquela dona do braço forte que sabe mexer o caldo quando engrossa. ela que sabe evitar que ele queime e deixe os pedaços feios colados no meu fundo, minha superfície lisa e metálica e bonita mesmo depois de todos esses anos de uso. tem que ser a moça que não erra no sal pra depois o convidado, sem graça, ter que pedir mais, e que também coloca na hora certa o tempero pra que não queime e fique aquele gosto de planta assada no caldo. estou aqui esquentando mas alguém tem que estar me olhando, não posso ser deixada assim, à própria sorte, vai saber o que essa minha quentura pode fazer… minha não, a bem dizer, pego emprestado. só por enquanto, enquanto esse caldo que antes era água e carne e vagem e coentro começa a borbulhar. mas tá comigo esse calor, e eu não sei guardar. panela não tem noção de tempo. alguém tem que olhar. de preferência, mexer também. saber deixar quieto e saber mexer, é a mesma coisa. eu não sei, não sei de nada, só sei passar o calor que me passarem. o negócio é que se me passam eu não paro de passar até pararem de me passar, sabe como é, começou tem que terminar. mas a moça sabe, aquela ali, tá de costas falando abobrinha mas eu sei que ela sabe que eu tô aqui, quer dizer, espero que saiba. alô, dona, tô aqui ainda. não saí andando. nem entendo esse conceito, nem sair nem andando. sair pra onde? comigo só tem dentro. e aqui dentro tem coisa que, aí sim, entende o que é sair. tão querendo me escapar. mas to guardando, olha como sou boa nisso, tô guardando aqui dentro, porque eu sou minha tampa também, não sou só esse fundo. talvez o que eu mais seja seja minha tampa. saber delimitar. isso eu sei. dona, tá ficando quente aqui. mas eu tô guardando, eu faço bem, diz pra mim que eu faço bem, é a panela velha de guerra, ela diz, é só nela que a comida fica boa. esqueça essas novas, metidas, anti aderência. aqui a gente adere. aqui gruda, se não mexer, mas mexer que é a parte boa, e pra mexer tem que olhar, ô dona, olha aqui dentro que você vai gostar, tô fazendo como sempre faço, eu nunca erro, quem erra é quem não me olha. um dia talvez eu vá cansar, um dia talvez o caldo já comece a ficar com aquele gosto de metal queimado que vocês não gostam, eu pessoalmente gosto, gosto de eu. só sei ser eu, só sei do meu gosto. a dona acho que gosta, vai demorar pra esse dia chegar. lá vem ela me olhar. isso mesmo, pegando a colher de pau, finge que não acha graça de ver a magia que acontece sempre, a magia que não é magia mas justamente por isso é mágica, jogou aqui, o negócio esquenta e aí todo mundo come, porque comigo é assim. panela boa só sabe fazer isso mesmo. quando ela olha eu paro de falar, tenho que dar espaço pra moça se concentrar porque a magia que ela faz é tão mágica quanto a minha e toda vez é igual, tem que respeitar a cerimônia. não tem problema ficar calada, até gosto. quer dizer que tão me olhando.
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