língua maternal

eu preciso voltar a escrever, eu digo com a cabeça no travesseiro. eu preciso voltar a escrever, eu penso encarando o chão azul do metrô, aquele padrão abstrato que disfarça a sujeira e a gente aprende a não ver. eu preciso voltar a escrever, eu digo pra quem quiser me ouvir, como se alguém fosse tirar do bolso uma caneta e papel e dizer “pronto, aqui”. eu preciso voltar a escrever, eu penso, quando vejo tudo o que tem no mundo e todo o pouco que sobra dentro de mim e que quer sair num padrão abstrato pra disfarçar essa sujeira que gruda em tudo. eu preciso voltar a escrever, escrever alguma coisa dessas que colam na parede, dessas que se a gente anda distraído com o olhar no chão a gente não percebe. eu preciso voltar a escrever as mesmas palavras que existem há séculos na língua que me foi impressa na testa como um sinal da besta, a língua que carrego como uma maldição milenar e que escorre em litros pelas placas, entre páginas, sobre telas, pelas bocas das pessoas que não veem o chão azul do metrô porque até a linha amarela fica apinhada às cinco da tarde e, dependendo do dia, às seis, também da tarde, como aprendi a dizer nessa cidade. a língua que é esse bebê ancião que ninguém amamenta e que chora sozinho no berço como aqueles bebês feios que nem a mãe quer ninar. saudade de por a cabeça na dobra do cotovelo de um ser quente e tão maior que eu que sabe de algo que eu não sei e que me nina com essas palavras que eu não entendo e ao mesmo tempo entendo melhor que todo mundo que tá aqui há mais tempo que eu. mas tô grande agora, e essa língua, essa monstruosidade, cresceu junto, cresceu mais, me assombra. me intimida essa mãe bebê difusa que nem olha na cara da gente, nós, os desalmados que não lhe deram de ninar, bem feito, o mundo gira, a língua também, no céu da boca de quem já desaprende a ver o padrão abstrato no chão do metrô e o azul sujo do céu da gente. preciso voltar a escrever, penso encarando números pensando que na linha de cima falta 8 e 3 mas não dá pra saber ainda onde por cada um porque é o sudoku nível difícil. número é língua também. tão me mandando sinais pelos 9x9‎ = 81 dígitos na tela do meu celular que não pega sinal. viramos todos celulares que não pegam sinal e que não olham pro chão mas também não olham pra cima então resta esse espaço estranho onde nada acontece entre a língua e o céu da boca. sem ninguém, o vagão é uma palavra que ninguém pronuncia. é triste de ver. é o gosto de nada. sempre senti esse gosto terrível de nada. voltar a escrever é abrir a porta e deixar entrar essa multidão desalmada de pais e mães ingratos filhos de uma língua fria e distante e sentir enfim o gosto dos olhos aquosos de quem não olha pro lado mas também não olha pra frente e muito menos pra dentro. tenho olhado com os pés e por isso sinto neles tanta dor desde a infância. ninguém merece essa língua e por isso mesmo é a que temos. preciso escrever não pra ninar esse bebê mas pra ver se ele me nina, é nesse estado que estou. pra você ver. a graça de ser bebê é que quem te cuida bem poderia te matar, só assim você se sente cuidado. essa língua vai me cuidando do jeito monstro dela de ser, e como maçã não cai longe da árvore eu também tenho meu jeito monstro de ser, de errar hora e lugar e chegar depois onde amanhã eu chegaria ontem se tudo desse certo mas nunca dá. ilusão é pensar que não se está sendo ninado. o metroônesse balanço é ótimo pros bebês, ninguém pense o contrário, criança que cresce em metrô bate muito bem da cabeça. eu nasci num quintal na iputinga quando comi pela primeira vez uma acerola. dessas frutas azedas que você joga pra lá e pra cá dentro da boca até se convencer que gostou. e aí você gosta mesmo. jogados pra lá e pra cá no vagão que agora que está cheio se pronuncia VA GÃO, grande mesmo, tem que encher a boca. VA GÃO. um vago grande. o espaço que fica depois que você engole. preciso voltar a escrever, mas escrever de verdade é isso, é o espaço entre cada vez que se escreve. dizem que a música é o silêncio entre as notas. tô me consolando aqui, na verdade. me perdoando. o bebê dorme em silêncio nem que seja uma horinha. é aí que ele é bebê mesmo. 

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