carangueijo-eremita

lembro da voz trêmula

das mãos enrugadas

andava encurvado

sob um peso invisível

comia de boca bem fechada

não gostava do barulho


sua esposa minha avó

quando viva fazia 

um pirão de carangueijo 

sensacional

- ele no fim de sua vida

via siris alucinados

a correr pelo chão



quando ela morreu

o encontrei sentado

inclinado sobre seu luto

sob o som do tempo

em nosso quarto de hóspedes

encarava a parede

em mudo ritual

encerrava em si os anos


a vida me era

toda um fundo de mar

e ele pra mim

criatura marinha

vivia pela praia

a concha sobre os ombros


é do fundo do mar

que saem os barulhos

as poucas verdades

que existem nesse mundo

queria ouvir sua voz de dentro

saber se era também

assim tão trêmula

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