tenho filosofado bastante. filosofia é o nome que se dá quando você encara o tronco de uma árvore em silêncio por uma hora e tenta entender por que as teias de aranha reluzem desse jeito sob o sol. ou, como diz o organista em demian, do herman hesse, filosofar é se deitar no chão sobre a barriga e encarar o fogo. muito se fala sobre a importância de criar, de por algo no mundo. pouco se fala sobre se deixar atravessar. hesse fala que somos de tal maneira ligados ao mundo ao nosso redor que somos, no fim das contas, seus co-criadores - se por acaso as montanhas, rios e mares desaparecessem da noite pro dia, seríamos capazes de recriá-los inteiros na nossa mente, porque "todas as criaturas da Natureza estão previamente criadas em nós mesmos". tenho buscado essas criaturas em mim, nesse tempo em que moro só em são paulo, vivendo de metrô e respirando essa frieza e secura, conhecendo os bares e sons tão novos e estranhos, ouvindo vozes que nunca antes ouvi. penso que demia...
internaram a menina tinha só 11 anos preocupavam seus olhos nunca erguidos flutuando erráticos nalgum ponto pouco acima do chão uma libélula tudo nela tinha cheiro da morte quando chega sorrateira sem bater de gente de passagem quando falava ressoavam sinos de igreja nada a surpreendia achavam que fosse somente imaginação mas o tempo foi passando foi-se confirmando o abismo que ela cavava com os pés não havia tristeza nem tampouco apatia é que gorgolejava no seu coração um rio estranho de águas pesadas que só corriam pra trás mas a verdadeira gota d'água o prego no caixão foi quando sua mãe a coitada enquanto a menina se banhava nesses banhos longos de quem quer ser água espiou no quarto dela e achou seu caderninho presente da avó quase intocado quis deus que ela abrisse na página 26 um papai noel desenhado com esmero os olhos tortos bochecha gorda de caneta vermelha fosca letras mal escritas pouco abaixo do desenho: "de natal eu queria sair de casa com meu quarto de u...
eu preciso voltar a escrever, eu digo com a cabeça no travesseiro. eu preciso voltar a escrever, eu penso encarando o chão azul do metrô, aquele padrão abstrato que disfarça a sujeira e a gente aprende a não ver. eu preciso voltar a escrever, eu digo pra quem quiser me ouvir, como se alguém fosse tirar do bolso uma caneta e papel e dizer “pronto, aqui”. eu preciso voltar a escrever, eu penso, quando vejo tudo o que tem no mundo e todo o pouco que sobra dentro de mim e que quer sair num padrão abstrato pra disfarçar essa sujeira que gruda em tudo. eu preciso voltar a escrever, escrever alguma coisa dessas que colam na parede, dessas que se a gente anda distraído com o olhar no chão a gente não percebe. eu preciso voltar a escrever as mesmas palavras que existem há séculos na língua que me foi impressa na testa como um sinal da besta, a língua que carrego como uma maldição milenar e que escorre em litros pelas placas, entre páginas, sobre telas, pelas bocas das pessoas que não veem o chã...
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